olhou de relance para trás
sem diminuir o passo.
- Os mantos dourados estão levando ele para o septo.
- Quem? - berrou Arya, correndo a toda velocidade.
- A Mão! O Buu diz que vão cortar a cabeça dele.
Uma carroça que passara pela rua deixara um sulco
profundo na rua. O rapaz saltou por cima, mas Arya não
chegou a ver a fenda. Tropeçou e caiu, de cabeça,
esfolando o joelho numa pedra e esmagando os dedos
quando as mãos atingiram a terra batida, A Agulha se
emaranhou em suas pernas. Arya soluçou enquanto
lutava para se pôr de joelhos. O polegar da mão esquerda
estava coberto de sangue. Quando o pôs na boca, viu que
metade da unha tinha desaparecido, arrancada na queda.
As mãos latejavam, e o joelho também estava cheio de
sangue.
- Abram alas! - gritou alguém da travessa. - Abram alas
para os senhores de Redwyne! - Arya conseguiu sair da
rua a tempo de não ser atropelada por quatro guardas
montados em cavalos enormes, passando a galope.
Usavam mantos xadrezes, azul e vinho. Atrás deles, dois
jovens fidalgos cavalgavam lado a lado num par de éguas
marrons, parecidos como duas gotas de água. Arya vira-
os na muralha do castelo uma centena de vezes; os
gêmeos Redwyne, Sor Horas e Sor Hobber, jovens
desajeitados de cabelos cor de laranja e rosto quadrado e
sardento. Sansa e Jeyne Poole costumavam chamá-los
Sor Horror e Sor Babeiro, e explodiam em risinhos
sempre que os viam. Agora não pareciam divertidos.
Todo mundo se movia na mesma direção, todos com
pressa de ver o que motivava o repique dos sinos, que
agora pareciam tocar mais alto, tinindo, chamando.
Arya juntou-se à corrente de gente. Doía-lhe tanto o
polegar onde a unha se partira que só com esforço
evitava chorar. Mordeu o lábio enquanto coxeava,
escutando as vozes excitadas ao seu redor.
- ... a Mão do Rei, Lorde Stark. Estão levando-o para o
Septo de Baelor.
- Ouvi dizer que ele estava morto.
- Não tarda, não tarda. Olha, tenho aqui um veado de
prata que diz que vão lhe arrancar a cabeça.
- Já vai tarde, o traidor - o homem cuspiu.
Arya lutou por encontrar a voz.
- Ele nunca... - começou, mas era apenas uma criança, e
os homens continuaram a falar por cima dela.
- Palerma! Não vão cortar-lhe a cabeça coisa nenhuma.
Desde quando eles dão um jeito em traidores nos degraus
do Grande Septo?
- Bem, não vão ungi-lo cavaleiro, com certeza. Ouvi dizer
que foi o Stark que matou o velho Rei Robert. Que lhe
abriu a garganta na floresta e que, quando o
encontraram, estava lá, frio, dizendo que tinha sido um
javali velho que matara Sua Graça.
- Ah, isso não é verdade, foi o irmão que tratou dele,
aquele Renly, o dos chifres de ouro.
- Cala essa boca mentirosa, mulher. Não sabe o que diz,
sua senhoria é um homem bom e fiel.
Quando chegaram à Rua das Irmãs, a multidão
aglomerava-se, ombro contra ombro. Arya deixou-se
levar pela corrente humana até o topo da Colina de
Visenya. A praça de mármore branco era uma massa
sólida de gente, todos tagarelando excitadamente uns
com os outros e fazendo força para chegar mais perto do
Grande Septo de Baelor. Os sinos soavam muito alto ali.
Arya contorceu-se através da multidão, esgueirando-se
entre as patas dos cavalos e agarrando-se bem à espada
de pau. Do meio da multidão, tudo o que via eram
braços, pernas e barrigas, e as sete torres esguias do
septo que se erguiam por cima da praça. Vislumbrou
uma carroça de madeira e pensou em subir nela para
conseguir ver, mas outros tiveram a mesma ideia. O
carroceiro os amaldiçoou e os afastou a golpes de chicote.
Arya ficou frenética. Ao forçar passagem até a frente da
multidão, foi empurrada contra a pedra de um pedestal.
Ergueu o olhar para Baelor, o Abençoado, o rei septão.
Enfiou a espada de pau no cinto e começou a subir. A
unha quebrada deixou manchas de sangue no mármore
pintado, mas conseguiu subir e enfiou-se entre os pés do
rei.
Foi então que viu o pai.
Lorde Eddard encontrava-se em pé no púlpito do Alto
Septão, à porta do septo, apoiado em dois homens de
manto dourado. Vestia um gibão de rico veludo cinza
com um lobo branco cosido com contas na parte da
frente, e um manto de lã cinza debruada de peles, mas
estava mais magro do que Arya jamais o vira, com a
longa face tensa de dor. Eram mais os homens
mantendo-o em pé do que ele se sustentando; o gesso que
envolvia a perna quebrada mostrava-se encardido e
apodrecido.
O próprio Alto Septão estava atrás dele, um homem
atarracado, grisalho pela idade e enormemente gordo,
usando uma longa túnica branca e uma imensa coroa de
ouro encordoado e cristal que lhe decorava a cabeça com
um arco-íris sempre que se movia.
Em volta das portas do septo, um grupo de cavaleiros e
de grandes senhores aglomerava-se na frente do púlpito
elevado de mármore. Entre eles destacava-se Joffrey,
vestido todo de carmesim, seda e cetim adornados com
veados empinados e leões rugindo, e uma coroa de ouro
na cabeça. Ao seu lado via-se a rainha sua mãe, trajando
um vestido negro de luto com fendas carmesins e um véu
de diamantes negros nos cabelos. Arya reconhe